Mergulho Literário


25/04/2012


Lendo e produzindo

Há uma frase que demonstra bem o amor incondicional de uma mãe, um amor que suporta tudo. Eu a li no romance que estou terminando, de Ivan Turguénievi, "Pais e Filhos" — muito bom, por sinal. Essa frase é dita por uma mãe ao seu marido quando se vêem sozinhos após a partida do filho que só "aguentou" ficar junto aos seus por três dias apenas depois de três anos de ausência! Desapontada a mãe diz: "O filho é como um pedaço que se corta. É como o falcão: quis, veio; quis, foi embora. E nós somos como certas aves que não saem do seu ninho no tronco de uma árvore seca.".

Daí, surgiu esse poema que intitulei ECOS.

A árvore me saliva e sou a boca que lhe come o tronco.

Fortes os meus braços, me debruço em sua solidão de galhos.

 

Há tempo para a colheita e tempo para a seca.

Quem sabe, um dia, velarei em sua copa para avistar outro horizonte?

 

A noite me alcançará e não mais uma montanha de seda,

de farta distância limpa, serei.

Meus dentes, cheios de sumo

e o meu corpo, jazerão em sua essência

 

quente e acolhedora.

 

E numa manhã qualquer,

numa doce manhã de qualquer manhã

a que não cante mais nossas raízes secas,

 

quem sabe, então, possa eu dar-lhe um fruto verde?

Escrito por Rosane Villela às 01h12
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10/04/2012


Um Dueto com um amigo

Há um bom tempo Carlos Edu enviou para seus amigos essa linda prosa poética. Não resisti e fiz outra, tentando dialogar com suas belas palavras. O bom da literatura é quando ela nos colhe a alma e nos faz extravasá-la de uma maneira ou de outra. Não dá para resistir quando isso acontece. Espero que ao lerem nossos textos, se sintam tocados também.   

Sopro de mar

(Carlos Edu)

Estávamos literalmente nos derretendo na tarde mais quente daqueles dias em Creta. Para completar, as caldeiras do navio exigiam mais e mais carvão. Eu olhava desolado para o meu corpo definhado e sujo de fuligem, que caminhava rapidamente para mais uma insuportável desidratação. Subitamente ela despontou na portinhola da casa das máquinas: ornada feito uma deusa, branca, mensageira e mensagem da beleza das pequenas mães de setembro. Não sei quantos segundos ou séculos se passaram até que ela corresse - como que se vaporizasse - por toda aquela ala imunda e repleta de  homens suados, vermelhos e taciturnos, completamente desnorteados com aquela  benfazeja visão. De onde teria surgido aquela mulher? Que outros segredos podiam esconder as profundas águas da Grécia?

 

No vermelho da solidão

(Rosane Villela)


Foi um momento limpo entre homens suados e cansados, vermelhos de solidão. Pasmos com a inesperada brancura, as montanhas pareceram-lhes circundá-la como uma concha acolchoada em sua tez. E bastou um só momento para que ela entrasse em suas vidas e os envolvesse como uma lembrança a lamber todos os lugares em que o navio parava. Na caldeira onde trabalhavam, a esperança de revê-la entrava na fuligem enxaguando a visão. Um dia, através da portinhola da casa das máquinas, ela correria a sua pele alva, e a união do mar com o céu não mais definharia - apenas delineada. Arderiam os olhos magros de carvão, mas eles saberiam que, por segundos, estavam livres. Para mergulhar no azul da pequena janela ausente e ouvir o sopro dela novamente.

Escrito por Rosane Villela às 17h42
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13/02/2012


Diálogo emocionante que tive no facebook com uma mãe sobre meu livro MENINA-MENINA, PRINCESA DE LAMA... em Novembro de 2011

Compartilho o diálogo apenas hoje, dia 13-02-2012, com atraso, sim, mas irrelevante, já que diálogos como esse são atemporais e valem pela vida toda. Se valem! Sou mesmo uma afortunada. Muito obrigada mamãe Ana Paula!

 

 

Ana Paula Lucena de Lara: Olá Rosane, meu nome é Ana e sou mãe de uma menininha de 04 anos chamada Beatriz, a Bibi. Minha filha me fez procurar vc no Google pois ela estuda na Escola Lobo da Cunha onde essa semana está acontecendo a Semana Literária e ela está DOIDA com os seus livros e só fala em vc : "Pq a Rosane Villela escreveu um livro sobre o que ela queria ser, pq o livro da Rosane Villela...". Enfim, qdo eu achei vc e mostrei a foto para ela, ela disse que era vc mesma pois tinha visto a foto no livro na escola. Se for vc mesmo que vai na escola, eu queria lhe dar os parabéns por ter cativado uma criança com um livro a ponto dela ter decorado o mesmo e falar, sem parar, em vc. Se vc não for quem procuro, peço desculpas pelo transtorno. Obrigada pela atenção, Ana Lara

Rosane Villela: Ana, somente hoje li a sua mensagem, me desculpe por não ter respondido antes. Quanta alegria você me deu contando tudo isso! Mas saiba que fui à escola e sei quem é a sua filhinha, pois a professora me contou e dei um grande beijo na Bibi.Foi um dia inesquecível! E melhor presente do que ler suas palavras não há. Diga a sua filhinha que, sempre que eu escrever, ela e você farão parte de minha história. Sempre carregarei comigo essa emoção. Ainda bem que Deus nos concede momentos como esse, não é? Muito, muito obrigada, querida. Um beijo enorme em seu coração encantador e no da sua filhinha. Rosane

Ana Paula: Rosane, saiba que o encontro tb ficou marcado para a Bibi e que o seu livro virou parte da nossa rotina de dormir, todo dia, uma página é lida. Bjo grande para vc tb.

Rosane Villela: Você me autorizaria a copiar essa nossa conversa em meu blog e facebook, lógico que omitindo seu nome, o da Bibi e o da escola? Antes de postar, eu enviaria para você ver se aprova ou não. Por favor, não se sinta constrangida em me negar por qualquer motivo, ok? Eu compreendo perfeitamente bem, viu? Bj

Ana Paula: Claro que eu autorizo. E pode citar nossos nomes. Bibi ficará orgulhosa !!!! Me avisa qdo postar para eu mostrar a ela. Bjo.

Rosane Villela: Então, verei se nesse final de semana consigo lhe enviar para ler antes de eu postar, tá? E quando for para o blog e facebook, eu aviso para que a Bibi fique feliz, e você e o filhão também. Muito obrigada.

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Como prometido, eu avisei. E pela confirmação de autorização da resposta dela, resolvi postar hoje. Eis abaixo a resposta de Ana Paula:

Adorei !!! Bjo grande !!!

Escrito por Rosane Villela às 17h06
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16/01/2012


Homenagem a Bartolomeu Campos de Queirós

Como não consigo falar sobre a emoção que sinto pela perda de um ser humano tão especial, como Bartolomeu Campos de Queirós, espero que as resenhas que fiz sobre alguns de seus livros (O Olho de Vidro de Meu avô e A Árvore), nos links abaixo, falem por mim...

http://rosanevillela.blog.uol.com.br/arch2011-07-17_2011-07-23.html#2011_07-22_20_25_56-8777091-0

 

http://rosanevillela.blog.uol.com.br/arch2011-05-15_2011-05-21.html#2011_05-18_03_41_56-8777091-0

Escrito por Rosane Villela às 12h40
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31/10/2011


Homenagem a Drummond

Hoje, dia 31 de outubro de 2011, quando se comemora os 109 anos desse poeta e é lançada a idéia, pelo Instituto Moreira Salles, de ser instituído um Dia D – Dia Drummond, que possa fazer parte do calendário cultural do país, presto uma homenagem a esse grande mestre da arte de viver e sentir. Inspirada pelo poema dele, Sentimento do Mundo, vai o meu, “apropriado” com dois versos seus. E a seguir, o poema A Cidade que acabou desembocando na sua lembrança também.

Sentimento do Mundo

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Tenho apenas duas mãos

e o sentimento do mundo,

mas estou cheio de escravos,

minhas lembranças escorrem

e o corpo transige

na confluência do amor.

 

Quando me levantar, o céu

estará morto e saqueado,

eu mesmo estarei morto,

morto meu desejo, morto

o pântano sem acordes.

 

Os camaradas não disseram

que havia uma guerra

e era necessário

trazer fogo e alimento.

 

Sinto-me disperso,

anterior a fronteiras,

humildemente vos peço

que me perdoeis.

 

Quando os corpos passarem,

eu ficarei sozinho

desfiando a recordação

do sineiro,da viúva e do microscopista

que habitavam a barraca

e não foram encontrados

ao amanhecer

 

esse amanhecer

mais noite que a noite.

 

Sentimento do mundo

(a Carlos Drummond de Andrade)

 

Os camaradas não disseram

que havia uma guerra.

 

Não, não disseram.

 

O medo pariu muros,

mundo carcereiro

listado nos nãos da entrada.

 

Agachem os mortos.

Falam demais.

Pulam os muros.

 

E o que mais?

 

 

A cidade   

 

Ela me abraça e, em seu olhar,

molho a saudade branca de um  tempo

que vestia bambolê nas cinturas das meninas.

 

E eu lhe pergunto:

Que bossa ondula, agora,

em suas pedras de montanha,

 

Ela nada diz. Mas o Drummond,

vadio, sem seu papel de estrelas,

me sorri...

 

 

Escrito por Rosane Villela às 13h44
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29/09/2011


Resenhando Machado: “A chinela turca”

Há algum tempo, resolvi reler uns contos de Machado de Assis. E, por motivos inerentes a leitura que fiz do conto “A chinela turca”, resolvi intitular a minha resenha como:

 

A chinela que não cabe em qualquer um

 

 De um cotidiano, uma visão de mundo. De uma observação, possibilidades infinitas e reflexões sobre o humano e suas idiossincrasias. Das reflexões, o entendimento. Do entendimento, o compartilhamento do leitor com a obra e a apreensão da crítica, da ironia e da estética machadianas.

Machado de Assis é homem de um tempo e localização atemporal, ainda que inserido numa época. Ler Machado é penetrar na viga mestra da sua obra: a sua estética. Uma estética que repousa numa linguagem repleta de silêncios, elaborada através do seu olhar irônico e crítico ante um mundo de convenções. Uma estética em que “no fundo da calma superfície da despreocupação aparente, esconde-se o aguilhão de uma lucidez desesperada”, como o professor, romancista e crítico literário Flávio Aguiar tão agudamente analisou, em seu artigo intitulado “Murmúrios no espelho”.

No conto “A chinela turca”, o silêncio da linguagem e a lucidez do contista disfarçam-se na verdade estética que funciona a serviço de um jogo seu, antecipado sutilmente no próprio título que ele escolhe. Machado surge como um pregador. De peças. Mestre de um jogo que estabelece entre seus personagens, a trama que tece e o leitor, ele esconde a carta triunfal, o coringa responsável em manter acesa a curiosidade de quem tenta desvendá-lo do baralho do seu texto — um drama que envolve a personagem principal, o bacharel Duarte, um homem apaixonado prestes a ter um encontro com a amada, na leitura de “uma peça do gênero ultra-romântico” escrita pelo Major, o visitante inesperado e “um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo”.

Dramas à parte, o autor também nos premia com o seu domínio sobre o tempo em que a narrativa se estrutura. Horas longas e curtas, vagarosas e rápidas surgem paralelamente aos fatos apresentados e reforçam ora a monotonia, o desalento, o espanto, ora a surpresa das personagens. E as peças não se encaixam. E o jogo fica mais duro. E Machado continua. Apostando, confiando e pedindo a participação do leitor, afinal, “há chinela e chinela. Tudo depende das circunstâncias”.

Mas, como dizia Afrânio Coutinho, em seu estudo crítico “Machado de Assis na Literatura Brasileira”, “a realidade, o meio, para ele, constituíam apenas a base, a matéria-prima que, à imagem de todos os grandes artistas, ele transfigurava e transformava em arte. Para ele, a verdade histórica existia para ser transmutada em verdade estética”. O conto “A chinela turca” é um ótimo exemplo da criatividade ilimitada de Machado. O real da ficção se mistura ao imaginário do personagem Duarte — que vive sua fantasia ao fugir, através de sua imaginação, da leitura do drama do Major. Uma história dentro de outra história que leva o leitor a ser um viajante duplo do imaginário.

E, de peça em peça, como num jogo de xadrez, de atos em atos, como numa peça de teatro, como um drama, o leitor encontra o grand finale na figura de “Ninfa, doce amiga, fantasia inquieta e fértil”, que não disponibiliza nunca totalmente a resposta. Prova, ao contrário, uma grave lição: a de que “o melhor drama está no espectador e não no palco”.  

No conto “A chinela turca”, Machado mostra que a literatura é muito mais um jogo de cena do que as palavras expostas. Sempre vai depender de quem o domina como escritor ou leitor no palco das letras. E vencedor sempre será aquele que souber calçar devidamente a sua “chinela turca”. Mesmo sem ter nenhuma amada ao seu lado.

Escrito por Rosane Villela às 00h36
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07/08/2011


Resenha de Roberto Santos no jornal O Fluminense

Poética viagem de sonhos

 

“Nas meninas.../Princesa lama./Estrela-menina/Menina de laço de fita./ E menina de rio.” (pág.22).

 

Não é só um livro bonito, com atraentes ilustrações de Giselle Vargas. Não! Muito além desses detalhes é um sensível canto poético em torno de sonhos — principalmente os que encantam a infância e, com magia, podem chegar à maturidade. E sonhos que trilham um caminho de pura poesia, sobretudo no que ela tem de “mistério evidente” — como observou Mario Quintana, acrescentando seu poder de trazer “sempre um imprevisível, uma surpresa, um descobrimento”.

Rosane Villela, escritora com grande destaque na literatura infantojuvenil, autora do premiado Apanhando a lua..., no presente livro, de início diz ao leitor que “Na alameda da infância, o tempo guarda os seus mistérios”. E esses mistérios, a Quintana, trazem surpresas e descobrimentos.

Num voo onírico, ela é “estrela-menina”, com metamorfoses vividas tantas vezes por todos nós — o sonho de chegar aos cometas, aos mares, aos rios, no livre misturar de ficção e realidade, dentro das fantásticas memórias de infância.

Um livro indicado para pessoas que nunca deixam morrer, no íntimo da alma.

 

Escrito por Rosane Villela às 14h22
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27/07/2011


Um conto antigo meu - Nó do passado

“Um dos maravilhosos privilégios da arte

é que a expressão de horror e dor pelo artista,

se rítmica e cadenciada, enche de calmo júbilo o espírito.”

Charles Baudelaire

Numa ponta do passado, num portão que ela achava perdido, havia um nó. Apertado. Adestrado. Um nó pastor-alemão. Bem feito, de corpo negro e claro.

Um nó de pedigree. Que arquivava antecedentes, quando permissivamente inquieto.

Era capaz de trocar olhares em segundos de orelhas e, inesperadamente, desatar sua linhagem e atacar.

Mas, até então, havia sido um nó treinado. Não incomodava. Ficava numa ponta nublada. E atrás de um portão. Um portão que ela achava perdido.

Por que o sonoro latido se nunca ecoara?

Indagativas, suas mãos acercavam-se, mas o odor bole-não-bole-vem-comigo exalava. Pedra. Sempre a mesma no seu caminho.

Escultura de flor e horror.

 

Escrito por Rosane Villela às 02h31
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23/07/2011


Homenagem a Elias José no COLE

Como prometido anteriormente, apresento a homenagem ao Elias José, que fiz a convite do COLE (Congresso de Leitura do Brasil), em 2009.

 

Boa tarde. Primeiro, quero parabenizar ao COLE pelos 30 anos de sua bela história. Segundo, quero agradecer o convite a minha participação nessa mesa redonda de homenagens. Sinto-me muito feliz e muito grata por estar aqui representando o COLE para falar sobre o Elias José, um escritor cuja trajetória se mescla aos objetivos e anseios desse evento.  

 Não conheci o Elias José pessoalmente. Infelizmente. Mas troquei com ele algumas mensagens por internet (bendita seja ela!), por lhe ter enviado uma resenha que eu tinha escrito sobre o seu livro Ao Pé das Fogueiras Acesas, publicado pela Editora Paulinas. Faço parte de um grupo de discussão de literatura Infantil e Juvenil chamado Letra Falante que, na época, estava trabalhando com a temática indígena, e coube a mim a obra Ao Pé das Fogueiras Acesas.

Dias depois do envio da resenha, recebi o seu retorno carinhoso e generoso sobre o meu trabalho e seu pedido para a publicação do mesmo. Fiquei sensibilizada, lógico, por ele ter gostado, mas principalmente, do fundo de meu coração, feliz por ter podido, através dessa resenha, lhe dar a alegria de compartilhar o encantamento que sua obra havia me despertado e que, com toda a certeza, despertaria em qualquer leitor. Qual escritor não almeja isso? 

Pena que nosso contato foi muito curto, pela perda repentina de sua presença entre nós. Com certeza, seria uma boa amizade, como tantas outras que pude vivenciar através da troca de mensagens carinhosas que entraram em meu e-mail, quando da comunicação de seu falecimento pelo Érico, filho de Elias José.  Foram depoimentos que falavam não somente do autor, mas do homem que ele havia sido e, por isso, apesar de não tê-lo conhecido, senti-me como parte daquela família tão grande que o abraçava. 

Graças ao Ezequiel Theodore, sócio fundador e presidente de honra da Associação de Leitura do Brasil - ALB, a história da minha resenha não ficou esquecida. Ela foi publicada — como desejava o Elias José —, na revista virtual LINHA MESTRA, da ALB. Creio, aliás, que por conta disso, estou aqui e muito agradeço. Elias, mesmo não estando entre nós, me possibilitou esse contato. Uma história que rendeu outras. Quantas mais haverá por aí que não sabemos? Elias se fez presente em todos os sentidos e, com certeza, muitas histórias ainda serão desvendadas para celebrar a sua vida.

Também, podemos imaginá-lo (como, com certeza, ele gostaria) por meio das histórias de seus livros, e de sua bibliografia, da qual me aproprio agora para que o conheçam melhor.

 Elias José nasceu em Santa Cruz da Prata, distrito do município de Guaranésia, Minas Gerais, em 25 de agosto de 1936. Viveu em Guaxupé, Minas Gerais, com sua esposa Silvinha e seus três filhos: Iara, Lívia e Érico.

Escrito por Rosane Villela às 19h23
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Continuando a homenagem a Elias José no COLE

Além de escritor, Elias José foi professor de Literatura Brasileira e de Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia de Guaxupé, tendo atuado também como vice-diretor, diretor e coordenador do Departamento de Letras e como professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira na Escola Estadual Dr. Benedito Leite Ribeiro.

Começou a publicar em 1970, quando a Imprensa Oficial de Minas Gerais lançou A Mal-Amada, uma surpreendente coleção de minicontos, com o apoio de Murilo Rubião, que reunia contos publicados em suplementes literários do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Portugal. Antes disso, já tinha conquistado o segundo lugar no Concurso José Lins do Rego da Livraria José Olympio Editora, em 1968. Depois, publicou O Tempo, Camila e o Inquieta Viagem ao Fundo do Poço, que ganhou o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro como Melhor Livro de Contos e, ainda, o prêmio Governador do Distrito Federal como Melhor Livro de Ficção de 1974.

Elias José tem contos e poemas traduzidos e publicados em revistas literárias e antologias de autores brasileiros no México, Argentina, Estados Unidos, Itália, Polônia, Nicarágua e Canadá. Foi, por várias vezes, selecionado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil para representar o Brasil em feiras de livros internacionais. 

Faleceu aos 72 anos, vítima de complicações de uma pneumonia, enquanto curtia férias com a família em Guarujá, no litoral paulista, no dia 02 de agosto de 2008.

 Essa referência bibliográfica se encontra, hoje, no Instituto Cultural Elias José (ICEJ), fundado em 2008, por iniciativa de Silvia Monteiro Elias, viúva do escritor. Trata-se de uma entidade de cunho literário, cultural e artístico, com sede em Guaxupé, Minas Gerais, que conta com pessoas que fazem parte do chamado “Amigos do ICEJ”, e que tem como objetivo a divulgação da literatura infantil, com o intuito de manter viva a obra de Elias José.

Recentemente qualificado como entidade filantrópica, em 27 de maio de 2009, o Instituto Cultural Elias José faz o que o autor fez em sua vida inteira: leva o gosto pela leitura através da interação do livro com a criança, propiciando encontros com escolas e instituições através das contações de histórias, poesias rimadas e apresentações teatrais. Tem também, em sua sede, um sebo em funcionamento — com a ajuda de doações de livros feitas por pessoas da comunidade local —; uma Biblioteca Infanto-Juvenil com mais de 1.000 livros no acervo, aberta ao público de segunda à sexta-feira; e, com o seu Projeto Caixa Mágica de Surpresa — que consta de livros transportados em caixas confeccionadas com ilustrações do livro publicado pela Editora Paulus, Caixa Mágica de Surpresa, — leva os livros até as crianças que não tem tanto acesso a essa forma de prazer.

Um belo projeto que, metaforicamente, ilustra todo o trabalho de Elias José. Traz a fantasia embrulhada numa caixa de papelão, como quando ele a trazia em seus livros. Pois, para Elias José, a fantasia é tudo. No livro Pequeno Dicionário Poético-humorístico Ilustrado, da Editora Paulinas, em seu poema Imaginário, ele diz:

Se só pisássemos em terra firme,

sem luzes, sem cores, sem asas na cabeça,

sem sonhos, sem fantasias, sem infância,

sem artes e artistas e crianças,

como seríamos pobremente infelizes!...

 

É o IMAGINÁRIO

que abre as portas do sonho,

da fantasia, do faz-de-conta,

com ou sem a palavra abracadabra.

 

O livro, para Elias José, é mágico, pois, segundo ele, “mágico é uma palavra que mora nos caminhos da infância”. E, da sua infância, mágicas eram as contações de histórias cheias de crenças e de medos por parte dos colonos da fazenda de seu pai. Mágicas também as histórias que ouvia pelo rádio e por parte de sua avó paterna libanesa, a dona Joana. Essa, apesar de nunca ter sido alfabetizada nem em sua terra nem aqui no Brasil, sabia encantar. Ele afirmava, “(...) como sabia encantar. Contava com gestos e caras, a modulação da voz segundo a ação ou os personagens. Aquelas histórias faziam a gente voar até o Líbano, nosso paraíso preferido.”

Elias José teve uma infância privilegiada com relação à afetividade e ao estímulo do imaginário. E dizia que se ele tinha virado escritor, se criava histórias e poesias, era porque tinha tido o seu imaginário infantil muito, mas muito bem alimentado. 

Em seu livro Literatura Infantil: ler, contar e encantar crianças, da Editora Mediação, ano 2007, ele não somente chama a atenção para a importância de como despertar esse alimento do imaginário através dos diferentes meios de comunicação, como também fala do que falta para que esse alimento se processe da melhor maneira possível:

“(...) O jornal, a revista e o livro contam histórias. O rádio, a TV e a internet contam histórias. As letras de música contam histórias, quase sempre de amor. Num quadro de pintura sem se perceber uma narrativa, com pessoas, tempo e espaço, há uma história feita de imagens, sem palavras. Os discos, filmes e peças de teatro contam histórias. Os quadrinhos e as propagandas contam histórias. Há belos livros, feitos só de narrativas através de imagens. O que nos falta, que parece estar voltando nas melhores escolas, mas que ainda está desaparecida da vida familiar, é a história contada e lida de maneira mágica, feita para encantar as crianças. Histórias que não querem vender nada, como nas narrativas da publicidade. Histórias sem vontade de passar lições religiosas e morais, sem vontade de ensinar nada, mas lidas ou contadas pelo simples prazer de envolver nas tramas das narrativas. Pelo afeto e pelas palavras e gestos, criam-se e recriam-se mundos e seus habitantes fantásticos. Histórias contadas pelo que tem o homem de inventar, de ficcionar poética e teatralmente.(...)”.

Elias era assim. Sabia que o seu melhor caminho de contribuição era o das crianças e adolescentes e não deixou de trilhá-lo. Seis anos após a sua estréia literária em livro, publicou Curtições de Pitu, pela Melhoramentos, em 1976, e, a partir daí, imprimiu a sua marca na literatura infantil e juvenil nas mais de centenas de livros publicados, muitos em reedições várias pelas diversas editoras de nosso país. 

Uma missão. Elias defendia a literatura infantil e juvenil como um bem maior, necessário à vivência de qualquer ser humano. Elias José foi Elias José, com toda a sua veracidade, com o seu prazer transparente na elaboração do texto, a alegria que jorrava de seus escritos, a imensa multiplicidade e diversidade de seu talento e a sua profunda simplicidade.

E assim ele se fez grande ante seus leitores, crianças, adolescentes e adultos, professores, educadores, editores, estudiosos de literatura, jornalistas, familiares, amigos e escritores.

Por isso, que falar de Elias José não é falar apenas de suas obras e sim, também do homem, do educador, poeta, escritor e amigo das crianças, para quem escrevia com total responsabilidade, espírito lúdico e compreensão do real através do simbólico.

Multifacetadas, suas obras comunicam pelo uso exato da palavra autoral, escolhida a dedo de acordo com a intenção e a especificidade a que se destinam. Elias José sabia que as palavras não são indiferentes e têm identidade. São únicas. Por isso, ele conseguia dar sabor a sua expressão, levando-a ao patamar da Arte quando o leitor também se exercitava no domínio da palavra. Expressando as descobertas e possibilidades de seu texto e criando outras. Criador e criatura envolvidos, inventando-se e reinventando-se num processo contínuo de diálogo e conhecimento...  

Em seu depoimento ao livro organizado por Ieda de Oliveira, O que é qualidade em Literatura Infantil e Juvenil – com a palavra o escritor, da Editora DCL, Elias José diz:

“Literatura é arte, feita com palavras, com o imaginário solto, sem compromisso de informar ou ensinar, com o grande desejo de emocionar, de sensibilizar, de mexer com a inteligência, com o “eu poético” do leitor e com o seu imaginário ficcional, provocando o prazer de ler e a vontade de também escrever.” “Quando estas importantes qualidades textuais forem reconhecidas” — continua ele —, “a leitura será colocada no seu devido lugar na escola: a prioridade e superioridade sobre qualquer outra atividade. Seja a leitura referencial como a didática e a literária, todas importantes, mas cada uma com qualidades e funções bem percebíveis.”.

Assim era Elias José. Um autor apaixonado pelo que fazia, preocupado com a arte da literatura e com a educação. Um mestre na arte de formação do leitor através da arte de mobilização. Trazia suas palavras para a realidade da criança e do professor, promovendo respostas criativas, necessárias e indispensáveis ao estar no mundo. Sua literatura é fonte de maravilhamento e de reflexão pessoal. Sua literatura é fonte de espírito crítico para a formação do ser.

Assim era Elias José. Um autor cujas obras alcançam o leitor pela sua ludicidade; pelo seu poder encantatório no ritmo que imprime aos seus escritos; pela sonoridade de suas palavras; pela sua poesia; e pelo conteúdo que abrange temas complexos ou triviais tratados de maneira descomplicada e com leveza.

Tenho muito a agradecer a ele. O mergulho na riqueza de sua obra me fez uma leitora e uma escritora mais sensível. 

Elias José, autor do presente, que conversa, brinca e compartilha no encantamento da literatura. Autor do passado, no respeito à preservação da memória da tradição e dos costumes; e autor do futuro, das futuras gerações pela contação de histórias que traz um denominador eterno: o sonho, o imaginário e o prazer.

 Muito obrigada a todos. Muito obrigada ao COLE pela oportunidade de homenagear nosso querido Elias José.

Escrito por Rosane Villela às 19h22
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22/07/2011


Um carinho para Bartolomeu Campos de Queirós

A árvore que somos nós

Rosane Villela

 

 

O que é uma árvore?

Para Bartolomeu Campos de Queirós, em seu livro A árvore, da Coleção-estrela, publicado pela Paulinas em 2010, e com belíssimas ilustrações de Mario Cafiero, a árvore é o mundo. E é a partir desse mote que seu trabalho literário, enganosamente simples, se supera. Alcança, poeticamente, pelo silêncio do não-dito, valores universais e expande a consciência na tradução subentendida da ética e do respeito a qualquer ser vivo.

Em linguagem imagética, a copa redonda e crespa da árvore copia o mundo e suas folhas são o mar que, com a brisa, traz as ondas. Bartolomeu assim o diz, mas não explica qual a imagem a que essa sua escolha vocabular remete. Cabe ao leitor jorrar o infinito de suas palavras, reter os passos apressados, e fazer com que seus olhos “tirem férias”, para que as ondas doces, como a água que corre entre os cascalhos, e escutada apenas por ouvidos de concha, possam lhe banhar o coração.

Olhos e ouvidos necessitam de um tempo todo especial — o da penumbra, como a oferecida pela sombra da árvore—, para a apreensão do essencial: a vida. Penumbra que o autor nos confidencia poder sentir no sofá de sua salinha, que tem uma janela por onde a árvore debruça. Penumbra que possibilita o recolhimento e o pensar. E, assim, Bartolomeu nos conduz. Como ele, estamos em A árvore assim como ela está em nós. Com o vagar característico da natureza, caminhamos por “ruelas, travessas e ruas tortas de galhos” que, às vezes, por força de uma brisa mais forte, ficam “dignas”. Compartilhamos, também, sentimentos, emoções, recordações, e temos saudade. Não a saudade triste que assusta, como a do dia em que o autor-protagonista encontrou uma asa de borboleta sem corpo, mas a saudade que aguarda coisas boas. Como a chegada das borboletas rebeldes que carregam o arco-íris inteiro em suas asas. Rebeldes, por estarem sempre a voar diante de nosso olhar tão incapaz de reter as suas cores.

Há um céu inteiro em cada gota de cristal nas folhas, recolhida com a chuva; as lagartas têm vocação para rendeira; passarinhos escondem seus ovos em espumas; as cigarras cortam a tarde pela metade; os grilos, paradinhos, são seres esculpidos pela paz; as formigas permanecem laboriosamente aflitas; e os mistérios da árvore são tantos que é difícil decifrá-los. Um olhar descansado e despossuído é preciso para enxergar os tons infinitos do mar verde que vêm abraçados em raízes desde quando não se sabe.

Mas a árvore-professora-de-Bartolomeu-e-nossa, a quem tanto respeitamos por nos fazer tanto pensar, nada espera. Continua generosa, acolhendo interrogações e agigantando o seu sonho de comunhão com a humanidade...

Escrito por Rosane Villela às 19h25
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Uma crônica para os dias atuais

Se essa rua, se essa rua...

A rua, que não é a minha, cola flores e gentileza de passarinho. Tem gosto de goiabada em tacho, tem adulto brincando, a gravata pendurada no varal, tem crianças catando luas verdes, com dedos de jardim.

Nessa rua, ninguém abana gritos. A esperança não azula só no céu; o dia é sempre semente de zelo para outro amanhecer; e o tempo sente a brisa, com o ponteiro afinado na prosa das velhinhas que, de leque na mão, atormentam os mosquitos e fazem a garotada esquecer o computador e a TV.

Na rua, que eu quero tanto e não é minha, o prazer também nunca tem pressa para acabar. A mão da esquina toca os corpos, as chuteiras beijam o futebol de domingo e o meio-fio sorri banhos de mangueira infantil.

Ai, quem me dera, quem me dera... ser eu uma pedrinha, para nessa rua de brilhante, a minha rua lapidar.

 

Escrito por Rosane Villela às 00h02
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21/07/2011


Lembrando Elias José

As pessoas falecem e nos deixam saudade. Mas ainda bem que temos a internet para facilitar a nossa vida em termos de comunicação e resgate das lembranças.

Hoje, arrumando a minha caixa de mensagens, encontrei esse diálogo que tive pouco antes do saudoso Elias José vir a falecer, em iniciozinho de agosto, se não me engano no dia 02.

Como podem ver abaixo, eu escrevera para ele por conta da resenha que eu tinha feito de seu livro Ao pé das fogueiras acesas, publicado pela Paulinas, por acreditar que todo autor gosta de receber um carinho.

Essa foi a intenção ao compartilhar a mensagem para a Paulinas com ele, mas eu não sabia, entretanto, que essa resenha — que também enviei para a Revista Virtual Linha Mestra —, quando ela pedia material para homenagear Elias José, me renderia o convite para homenagear Elias José no COLE (Congresso de Leitura do Brasil). Depois, vou postá-la por aqui, mas em partes, pois é longa. Agora, após o diálogo, vai a resenha do livro dele, que intitulei A noite dos tempos.

 

De: Elias José [mailto:elias_jose@yahoo.com.br]
Enviada em: domingo, 8 de junho de 2008 09:35
Para: Rosane Villela
Assunto: Re: Resenha de Rosane Villela

Minha cara Rosane:

Que resenha bonita, bem escrita, capaz de encher de alegria o autor e o ilustrador do livro.

Por favor, me autorize a republicá-la por aqui. Muito obrigado, muito envaidecido fiquei com a leitura dela.

Aguardo com carinho o lançamento do seu livro pela Paulinas, sempre corretas e editora de bom gosto.

Abraços amigos e agradecidos do

Elias

--- Em sáb, 7/6/08, Rosane Villela escreveu:

De: Rosane Villela
Assunto: Resenha de Rosane Villela
Para: "Ed.Infanto Juvenil - Edu" , maria.alexandre@paulinas.com.br
Cc: "elias_jose"
Data: Sábado, 7 de Junho de 2008, 14:52

 

Prezadas Ir. Flávia, Ir. Maria Alexandre, Rosane, e caro Elias José,

 

Boa tarde.

 

Escrevo para enviar uma resenha sobre o excelente livro Ao pé das fogueiras acesas de Elias José, ilustrado por André Neves. 

 

Espero que gostem do meu artigo. Além de ser uma forma de agradecimento à editora, onde, em breve, também o meu livro Apanhando a lua...estará sendo publicado, a obra é realmente encantadora em todos os sentidos. 

 

Caso desejem aproveitar a resenha no site da Paulinas ou mesmo em qualquer outro meio, autorizo a publicação.

 

Um abraço,

Rosane Villela

 

A noite dos tempos

(Rosane Villela)

 

 

Nas labaredas das gerações, o tempo dispara fábulas. E o homem conta a sua arte, aquecido pela magia primitiva da oralidade. De Esopo a Elias José, apenas um sopro, nas diferentes formas de fabular que resgatam o imaginário universal. E o que é de um povo expande-se a favor da humanidade ao pontuar-se através da recriação.

Da ágora — praça pública dos gregos, local dos discursos e discussões na Antigüidade Clássica — aos dias atuais, ainda que o registro das civilizações nos chegue sob a forma de documentos escritos que comprovam ou não a sua autenticidade, o fato é que o homem é um articulador dos tempos. À procura do conhecimento não somente de sua história e da origem da humanidade, como também da magia dos seus inúmeros mitos, lendas e fábulas.

Se, pelo mito, a história de uma civilização pode ser contada pela carga simbólica que adquire para uma determinada cultura; e se, pelas lendas, pode ser sonhada pela narrativa fantasiosa que as inclui; pelas fábulas, o homem encontra o caminho para se exemplificar por meio da representação de uma idéia abstrata, através das figuras dos animais.

Nas fábulas indígenas da obra Ao pé das fogueiras acesas, de Elias José, esta exemplificação procede a cargo da cultura a que elas remetem. Uma exemplificação de ensinamento, própria da nação, em que pesa a sua sobrevivência no meio onde vive. Transferindo a esperteza e a inteligência aos animais que apresentam desvantagem física frente aos outros, as fábulas suscitam situações que sugerem como superar os medos, reagir face ao perigo, ser criativo, estar atento ao inesperado, sobreviver na mata, enfim.

Mas não é por esse viés que o reconto delas feito por Elias José chega ao leitor. É pela força encantatória da ludicidade que sua narrativa o transporta, de maneira muito prazerosa, ao rito da nação indígena, onde muitas histórias são aquecidas e recontadas ao redor da fogueira. O mito indígena, assim, com poesia, é retomado e nos tornamos também parte daquela nação, daquela floresta.    

Em seu reconto das fábulas — que, no sumário, aparecem com vinhetas imbuídas de detalhes dos animais, ilustrados por André Neves —, o autor, com sua habilidade indiscutível de contador de histórias, entremeia cantos que lembram brincadeiras provocadoras de crianças arteiras, com a utilização rítmica recorrente dos “Olé, olá, olé, oliri-ri” que iniciam ou finalizam versos, como nas histórias “ O jabuti e a onça” e “O jabuti e o elefante” ; e mantém o mesmo entusiasmo de jocosidade em “A esperteza do sapo”, “A raposa e o homem”, “A raposa e a onça” e “As trapalhadas da aranha-caranguejeira”, com uma narrativa tão quanto consistente e repleta de diálogos.

Ainda, em um testemunho de amor à tradição, que apresenta logo na introdução, Elias José homenageia “Esopo, La Fontaine, Sílvio Romero, Câmara Cascudo e muitos outros” e avisa ao leitor para não buscar nas fábulas somente lições de moral. Defende, antes, “as mil formas de fabular e de refabular” para que a chama de imaginárias fogueiras continue vibrando, e expressa a necessidade de não esquecermos a tradição e cuidarmos dos dias atuais, quando afirma: “Hoje, em tempos de fogueiras apagadas, / precisamos fuçar na memória / e catar os cacos dos sonhos / para engrandecer a vida / e não sufocar o mito e a poesia”. 

Também motivado pelo eixo comum aos textos apresentados — a ludicidade e a reverência ao gênero —, André acompanha o autor com igual brilhantismo. Sem estabelecer legendas imagéticas ao texto de Elias e, com cuidado, oferece, através da brincadeira de suas imagens, diversão ao leitor ao mesmo tempo em que sensibiliza o seu olhar. Para os detalhes que saltam das formas grandes que cria — como os olhos expressivos dos animais, que caracterizam seus sentimentos. Para as particularidades que pinça do texto — como na ilustração enorme do elefante que ocupa uma página e meia, para contrapor-se à do pequeno jabuti que, com ele dialoga em pé sobre uma pedra, num cantinho da mesma página. E para o movimento dos seus traços — como o fio onde a aranha-caranguejeira se balança; a tromba do elefante que parece mergulhar numa página inteira, para segurar a ponta de uma corda afundada no mar, para o início de uma disputa; e as letras do título Ao pé das fogueiras acesas que podem ser visualizadas chispadas, na cor alaranjada da brasa, pelas labaredas da fogueira acesa que é circundada pelos animais da floresta.  

Tanto Elias José como André Neves, cada um a sua maneira, participam do existencialismo fabuloso ao recriarem a sua própria fábula, tão verdadeira, na intertextualidade com o fio condutor primeiro, o das fábulas indígenas. Com independência um do outro, ainda que alimentados pela mesma linguagem da ludicidade, abrem campos de alimentos distintos ao nosso olhar que, por sua vez, também recria.  

Sai o leitor ganhando duplamente, embevecido pelo clima de magia e poesia que perpassa toda a excelente edição da Paulinas, cujas cores diversas e harmoniosas de páginas — em tons que passeiam do preto ao amarelo vibrante —criam a atmosfera propícia e também fabulam para contar a noite dos tempos.

 

Escrito por Rosane Villela às 19h45
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17/07/2011


Comentando informações sobre meu livro

Como saíram algumas publicações sobre meu livro, que dizem ser ele sobre o folclore (Globinho, Extra e uns poucos blogs), resolvi explicá-lo um pouco para que os leitores possam ter uma informação mais precisa sobre ele.

Em Menina-menina, princesa de lama..., o folclore é apenas pano de fundo em algumas passagens; não em todas. Trata-se mais de uma tentativa poética na elaboração de múltiplas personagens em uma, todas circulando entre si e se complementando, embaladas pela minha própria lembrança pessoal, e num trabalho de memória que tem como prioridade a permanência múltipla do ser e a brincadeira da transformação. Afinal, somos um ou vários?  

"Menina-de-rio, da paz que a menina-de-mar não esqueceu./ Menina do Paraíba, do rio tão dela quanto do rio seu."

Nessa passagem, como em outras, presente e passado se misturam, redondamente, e imitam o movimento rítmico da vida pessoal e dos versos. Nada é estático, tudo se transforma e retorna. Como o tempo e, por exemplo, o próprio “rio”, palavra da qual me aproprio para me reportar aos dois rios de minha vida, o Paraíba (na menina-de-rio) e o Rio de Janeiro (na menina-de-mar, já que moro nessa cidade).

"Com quem brinca essa menina de se virar e desvirar? Em princesa de lama;estrela-cometa; e meninas de laço de fita e de rio? Será que, quem brinca com ela, sabe em que rios ela guarda a lua no peito? E você? Quer descobrir se tudo é fita? Ou se tudo é fato de fato?"

Na contracapa do livro, para atender a editora Paulinas, eu mesma escrevi o texto acima, com a intenção de despertar o interesse pela leitura e de dar uma dica sobre meu trabalho. Nada tenho contra o folclore; muito ao contrário, o admiro demais e penso que minha imaginação e criatividade não seriam as mesmas se meu imaginário não tivesse sido também alimentado por ele. Por isso, agradeço a divulgação lincada à temática do folclore (toda divulgação é sempre muito bem-vinda), mas, quanto aos leitores, eu me sentiria desconfortável se não os esclarecesse. Como disse anteriormente, o folclore apenas funciona, em determinadas passagens, como um dos recursos que usei junto a tantos outros, como a da criação da personagem do tempo-eterno-menino que sempre acompanha as várias meninas em meu...

(...) Olhar iluminado...

Pelos morros das tangerinas, das laranjas, dos bambus,

e pelo casarão inundado de feijão gostoso do fogão à lenha...

Lenha do pasto, onde as vacas,

entorpecidas,

ruminavam segredos.

Segredos do tempo

que nunca acaba.

É tão menino...

Ainda me canta e

me  derrama seus sonhos.

Nos meus...

De menina.

Menina-princesa.

Princesa de lama...

 

Escrever para crianças é sempre acender o meu olhar, já tão sensível e atento. É ela a quem meu coração se aconchega, em sua sabedoria pequena tão imensa de verdades e inocência. Minha esperança é que o coração-criança-adulto possa ter tão bons momentos como eu tive no Menina-menina,princesa de lama..., presente especial da criança que carrego em mim. Embrulhado em poesia...  

Escrito por Rosane Villela às 18h57
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15/07/2011


Continuando a ótima crônica do Aldo Cordeiro

        A casa da Rita, como era a Casa de Irene, "tem gente que chega tem gente que sai." ("Na casa de Irene, de noite ou de dia, a alegria que chega, a tristeza que vai"...). Rita é uma anfitriã bem humorada e de mesa farta. Oferece pedacinhos da casa, alugados, para a Flip, com direito a café da manhã.  Mas, termina fazendo uma sopa deliciosa. Mais uma dádiva 0800, com muito carinho, desta cidadezinha apaixonante.  Desta vez, todas as noites.  

        No entanto, ela avisa, não gosta de gente mal humorada, de baixo astral.    Os hóspedes ganham de presente um tanto de histórias, porque ela nasceu lá e conhece cada pedacinho da cidade. 

        

        Curti o pequeno cais, com seus barcos de levar turistas.  Numa noite, encontrei uma amiga, de outra Flip, e ficamos conversando até tarde, falando dos tempos modernos e suas loucuras.  Aqui, ainda é um lugar que se anda pela madrugada, conversando sem medo, saboreando a noite sem pressa.

 

        Afinal, e as palestras, os debates, os autores que vieram à festa?  Não ouvi nada, não vi nenhum.  Mais do que nunca, estive off.  Mais do que o que se chama mesmo de off-Flip, que é a programação que reúne escritores além das tendas da festa.  

      Mas, escutei o rapaz de uma ong, explicando como se faz um barco movido a energia solar e sobre o trabalho que eles fazem com as crianças, nas escolas da cidade, ensinando navegação.   Depois, ouvi o pessoal do Greenpeace, sobre a teimosia do governo brasileiro em construir usinas nucleares, na contra mão da História atual. Havia um pequeno modelo de um aquecedor de água alimentado por energia solar.  Uma idéia genial que nasceu em Santa Catarina e já aquece água em muitas casas daquele Estado.

 

        Antes de viajar, escrevi um texto. A idéia era distribuir na cidade, junto com um marcador de livros do site onde vendo livros - Estante Virtual.  Na hora H, desisti. Achei que seria mais um no meio de toneladas de papel.  Prefiro ir aos poucos, conversando sobre meu trabalho de livreiro.  Aqui mesmo no Rio ou com os amigos de longe, pela rede.   Não gosto de coisas massificadas, jogadas ao ar. Prefiro o papo ao pé do ouvindo. Onde se fala e se escuta.   Prefiro fazer promoções ocasionais, como a atual (até o final deste mês), onde prometi doar 50% do valor arrecadado nas vendas a uma instituição que cuida de crianças.  Vender livros, pra mim, é mais do que um comércio.  O lucro é bem pequeno, mas descubro amigos, ajudo com meu trabalho, dou parte do meu tempo de vendedor a alguma causa. gosto de saber que estou ajudando a democratizar a leitura, antes tão inacessível.

 

        Como tudo que é bom e ruim também, a festa acabou.   Por melhor que seja o ritmo, uma hora o pessoal para de tocar e... a gente volta pra casa.   E a pequena cidade de pedras toscas precisa descansar algumas horas, antes de começar a se enfeitar para a festa de Santa Rita, uma semana depois (haja fôlego!).  E até o final do ano, ainda tem festival de cinema, de teatro de rua, de comida caiçara, de cachaça, de fotografia...

        Aconselho a cada um dos meus amigos: vá a Paraty, pelo menos uma vez na vida. Se for na época da Flip, melhor. Pra curtir o que quiser, de palestras eruditas, papos mais leves (alguns autores, como João Ubaldo Ribeiro,  foram muito elogiados, pela simplicidade e riqueza de suas falas), a grande variedade de  eventos que acontece nas ruas.  Se não puder, vá em outra festa.  Todos os meses, têm, pelo menos, uma.  Simples, locais ou cheias de turistas.  A cidade é sempre linda, aconchegante, fonte de saudade.

        

        No próximo ano, o homenageado será Carlos Drummond de Andrade.  Já imagino como vai ser isso... a emoção que vai se juntar as águas do rio, às canções dos artistas.

          Se a vida me for cumplice, estarei lá...

 

 

Aldo Cordeiro

Rio, 11.07.2011

 

PS - A Rita pede pra eu lembrar que ela aluga uma suíte, no quintal de casa, bem equipadinha, no bairro histórico, perto de tudo, da paz que vem do mar, logo ali na esquina, e de todos os agitos das festas. 

Escrito por Rosane Villela às 19h07
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