Mergulho Literário


13/03/2015


CENTOPÉIA DE NEON, de Edival Lourenço

CENTOPÉIA DE NEON é título que encerra em si todo o significado do livro. Há "pernas do mal, que brilham", que cegam, e que também expõem a escuridão de um mundo triste e cruel. 

Mas não se trata de romance-arsenal-de-maldade-exposta, cujo final pode ser previsto, justiceiro ou não. Ao optar pelo desfecho deliróide extraterrestre, Edival nos oferece o melhor de si: o seu próprio trabalho de metalinguagem.

Que o leitor respire um sentimento de frustração, ao ver-se, desprevenido, diante de uma explanação "ufológica" que lhe parece sem sentido numa trama de ganância e maldade, e que ele pense que o autor poderia ter trilhado outras fendas, é perfeitamente compreensível, mas, antes de qualquer outra suposição, cabe a pergunta: caso outras fendas houvesse, o que representariam?

Denúncia é para onde Edival Lourenço aponta.  Descrença no ser humano e em tudo que poderia advir dele. Daí, o "grand finale", no encontro da personagem Romã, Amor, ao contrário, tão promíscua e amoral como os demais, com um ET, este, no entanto, com todas as características esdrúxulas de um ser diferenciado. O único com a possibilidade de portar a metáfora do BEM. Mas BEM que é abortado antes de vingar-se num mundo onde nem mesmo nenhum deus poderá sobreviver... 

Assim, a escolha do autor pelo delírio ou a sua "suposta" desorientação no desfecho do romance é, antes de tudo, um golpe de mestre. Não traz a perda de prumo e rumo do autor, como pode parecer. Ao contrário, oferece a própria coerência autoral que permeia toda a obra: denúncia séria como irônica, de que, à humanidade, só lhe resta o delírio e o vazio, diante de tanta maldade permitida. 

Aquele que souber ler nas entrelinhas, por certo sairá mais consciente com a narrativa pontual que Edival Lourenço nos traz. 

Escrito por Rosane Villela às 13h37
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01/03/2015


OS TRABALHADORES DO MAR, de VICTOR HUGO

" Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o segredo dos grandes corações está nesta palavra: perseverando. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio." 

O livro é maçante quando ele entra em pormenores técnicos de navegação e em excessivas descrições, mas o que surpreende são as reflexões que ele entremeia no meio de tudo, nos dando um clique no pensamento...

Escrito por Rosane Villela às 21h45
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25/02/2015


Livros companheiros do A MONTANHA MÁGICA

Enquanto lia A MONTANHA MÀGICA, de Thomas Mann,outros livros foram lidos junto a ele. O IRMÃO ALEMÃO, de Chico Buarque, que gostei. Interessante a narração que flui livremente do começo ao fim sem nenhum diálogo, com parágrafos longos que nos levam em vertigem, como ondas do mar. Para as que já arrebentaram na orla; para as que estão por vir; e nas que, como leitores, surfamos. É assim que somos capturados pelas teias do fluxo do pensamento do autor nesta história que se nos desvela por sua memória biográfica e invenção.

 

Também, ainda "escalando a mesma montanha de Mann", veio a seguir MR.GWYN, de Alessandro Baricco, e, como já disse antes, trata-se de "um romance totalmente diferente de tudo que li. Um escritor que decide nunca mais escrever livros e sim, escrever retratos. Isso mesmo: escrever retratos, mas a partir de modelos vivos numa situação inusitada que não vou contar por motivos óbvios."

 

Depois, fui para BUDAPESTE, de Chico Buarque, de teimosa que sou, para ver com meus próprios olhos se compartilhava ou não a opinião de que não era um bom romance. Estavam certos. Dele não fiquei surpreendida nem encantada, mas valeu para conhecer melhor o Chico autor. Foi bom, de qualquer maneira, passear com ele por Budapeste, onde tive o prazer de estar em 2009, numa viagem que me levou a diversos outros lugares da Europa. 

 

E, como tendo a ler mais que um livro de um autor, e como fiquei curiosa pelo autor italiano Alessandro Baricco, tive o prazer de receber de presente, agora de meu filho Marcos, o A PAIXÂO DE A. . Gostei mais do MR. GWYN, pelas entrelinhas que há nele. O que não quer dizer que em A PAIXÃO DE A. elas não existam. Mensagens subliminares, entrelinhas, metáforas, o dito pelo não dito me parece ser uma característica marcante dos livros desse autor. Junto a essa paixão, ganhei, também do Alessandrto Baricco, o livro SEM SANGUE, já lido pelo meu filho que muito gostou dele. Nada posso dizer, no entanto. 

 

E, enfim, após terminar A MONTANHA MÁGICA, li NAS TUAS MÃOS, de Inês Pedrosa durante o Carnaval. Trata-se de um romance no qual a autora entrelaça a história em relatos de três gerações: no diário da mãe; no álbum de fotografias da filha, e nas cartas da neta . Leiam abaixo esta linda passagem do diário da avó:

" No momento em que se isolam os motivos e os sentimentos de um ser humano para os analisar objetivamente gera-se uma injustiça fundamental. Aliás, é por causa dessa moda, a que chamam científica, de descascar as coisas para as ver de perto, que o mundo está como está. Cada pessoa é uma harmonia de solidão, decompô-la apenas pode fazer com que sua música se torne inaudível."

 

É realmente tocante ver a propriedade com que esta portuguesa domina o vocábulo e o seu fazer literário. Palavras certeiras em tempo certeiro com as três gerações de mulheres. E riqueza do idioma português ao ponto de encher nossa alma de imagens e beleza. Como:

 

" A gratidão funcionava como uma âncora, recordando-nos que o mar tinha um fundo como o mal teria um fim."

" O abandono não é um ato de vontade mas uma consequência do esquecimento..."

" O ciúme é o vírus do analfabetismo sentimental..."

"(...) não levo da vida o peso das armas oxidadas. Sempre soube que não valia a pena, que o tempo é demasiado curto para ser contrariado."

Escrito por Rosane Villela às 20h56
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CARACTERIZAÇÃO CÔMICA DE UMA PERSONAGEM EM A MONTANHA MÁGICA

Há uma parte muito engraçada que está na caracterização cômica de uma personagem por Thomas Mann. Hilária, eu diria, de tão detalhada pelo autor. Caricatural mesmo, ao ponto de me lembrar o fidalgo Alonso Quijano do romance de Miguel de Cervantes, DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, que pssava o seu tempo lendo romances de cavalaria. 

 

Trata-se de Peeperkorn, que como o fidalgo de Cervantes, é também um bom exemplo, na minha opinião, de como certas personagens existem para vingar eternamente... Diz o narrador:

 

“ (...) poderíamos acrescentar que Peeperkorn tinha o bigode raspado, o nariz grande e carnudo, e a boca igualmente grande, com os lábios irregulares, como que gretados. Apesar das mãos serem bastante largas, as unhas eram compridas e pontudas. Quando Peeperkorn falava – o que fazia quase sem cessar, embora Hans Castorp não conseguisse entender claramente o conteúdo das suas palavras -, servia-se dessas mãos para gestos elegantes, que mantinham os ouvintes em suspenso, esses gestos delicadamente matizados, esmerados, precisos e nítidos que revelam a cultura de um diretor de orquestra; curvava então o dedo indicador para que formasse um círculo com o polegar, ou estendia a mão espalmada – larga, mas de unhas pontudas – num movimento protetor, tranquilizante, que exigia atenção. Contudo, a atenção sorridente que ele conquistava era logo decepcionada pela vagueza das exposições tão intensamente preparadas. Ou melhor: não era decepcionada, senão transformada em uma alegre surpresa, pois o vigor, a fineza, a ênfase dos preparativos não somente substituíam com perfeição, e ainda posteriormente, aquilo que faltava, mas eram em si satisfatórios, interessantes e mesmo preciosos. Às vezes nem sequer chegava a pronunciar palavras. Acontecia-lhe  por suavemente a mão sobre o antebraço de seu vizinho da esquerda, um jovem sábio búlgaro, ou de Mme. Chauchat, à sua direita; depois erguia a mesma mão obliquamente, reclamando silêncio e curiosidade para o que desejava dizer; franzia então as sobrancelhas a tal ponto que as rugas que desciam em ângulo reto da testa para as comissuras exteriores dos olhos se aprofundavam como numa máscara, e baixava o olhar sobre a toalha, ao lado da pessoa assim agarrada, enquanto os lábios grandes e gretados pareciam dispostos a formular qualquer coisa altamente importante. Alguns instantes após, porém, afrouxava a respiração e renunciava a falar, dando, por assim dizer, o comando “Descansar armas!” Sem ter proferido palavra alguma, tornava a ocupar-se com o seu café, que mandava fazer especialmente forte, e que lhe serviam na sua própria cafeteira.”

 

E continua:

 

“Depois de ter bebido, procedia da seguinte maneira: com um gesto de mão coibia a conversa, obtendo silêncio, assim como um regente faz calar a confusão dos instrumentos que estão sendo afinados e procura, por meio de um mando imperioso, concentrar a orquestra, a fim de começar uma peça. Sua cabeça grande, rodeada de labaredas de cabelos brancos, com os olhos sem cor definida, as poderosas rugas da fronte, o comprido cavanhaque e a boca desnuda e dolorida eram indiscutivelmente impressionantes, de modo que todos costumavam obedecer-lhe ao gesto. Os comensais emudeciam, olhavam-no sorrindo, esperando, e aqui ou ali havia quem lhe desse um sinal alentador. E Peeperkorn dizia numa voz abafada:

- Senhoras e senhores. Muito bem. Tudo vai bem. Queiram, no entanto, observar e não perder de vista em nenhum momento que... Nada mais sobre este ponto... O que me cumpre declarar não é aquilo, mas principal e exclusivamente o seguinte: temos o dever... É de uma forma inelutável... Repito e faço questão de usar essa expressão: é de uma forma inelutável que se reivindica de nós... Não, senhoras e senhores, não! Esse não é o sentido... Não me interpretem como se eu... Que erro grave não seria pensar que... Basta amplamente! Sei que estamos de acordo sobre todas essas questões, e por isso entremos no assunto!”

 

“Não dissera nada, mas a majestade da sua cabeça parecia tão indiscutível, o jogo de fisionomia e a gesticulação eram de tal modo enérgicos, imponentes, expressivos, que todos, inclusive Hans Castorp, empenhado em escutar, criam ter ouvido algo de grande peso, ou, se é que se davam conta de que o discurso carecia por completo de conteúdo e de coerência, não se ressentiam dessa falta. Seria interessante saber qual teria sido a reação de um surdo.”

 

Essa parte que se detém mais na descrição desse personagem encontra-se nas páginas 734, 735 e 736. E há outras mais, onde Thomas Mann mostra a sua veia cômica e irônica com precisão.

 

Também me deparei na página 893 com uma definição da personagem chamada Settembrini sobre a parte de humanidade que todos encerram em si, e que bem serviria para os tempos atuais. De minha parte, pensei na politicagem e na impunidade que faz com que essa frase seja muito, mas muito mesmo, verdadeira.

" Quando entra em decomposição a coragem ética de optar e de fazer uma distinção entre conceitos como a impostura e a realidade, acaba-se a vida em geral da mesma forma que o juízo, os valores e o ato civilizante. Começa então a obra atroz de um processo de putrefação, causado pelo ceticismo moral." E acrescentou ainda, o que me lembrou o direito à liberdade de expressão: "(...) o homem era a medida de todas as coisas e tinha o direito imprescindível de se pronunciar sobre o bem e o mal, sobre a verdade e a mentira. Ai de quem se atrevesse a desviar a humanidade da fé nesse direito criador! Para ele era melhor ser afogado no mais profundo de todos os poços, com uma mó em volta do pescoço" 

Muito bom, não é?

Escrito por Rosane Villela às 20h52
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Ainda A MONTANHA MÀGICA E OUTROS LIVROS

Muito do que lemos às vezes cai como luva na situação pela qual passamos. Nesse caso, falo do Brasil e o que nele vivenciamos, destarte ser cabível também para outras assimilações.

Em A MONTANHA MÁGICA, de Thomas Mann, numa passagem em que se discute a maçonaria e religião, foi essa frase que me trouxe o Brasil na carona dela.

"(...) grave na sua memória que a tolerância se torna crime quando se devota ao mal." (página 688).

Em tempo: a questão discutida no livro é na realidade sobre a tolerância nos meios mencionados, não na oposição de um contra o outro.

 

Engraçado como chegam as coisas para cada um... Pensei que a atenção do texto caísse sobre política e acabou caindo em discussão, no facebook, mais abstrata, de crença em religião e a ordem que remonta à revolução francesa cujo lema é a igualdade, liberdade e fraternidade. Culpa minha que me expressei mal. Melhor deixar o personagem sr. Settembrini responder à pergunta do personagem Hans Castorp,"E Deus seria o mal?" . Ele responde:

"A metafísica é o mal. Não serve pra nada a não ser para adormecer a energia que deveríamos consagrar à construção do Templo da Sociedade."

 

E eu novamente argumento: falta aos homens construírem um templo onde a humanidade seja sinônimo de Deus.

 

Falando em facebook, enviaram uma notícia de um homem que casara com três mulheres e cujo crime foi descoberto por uma delas por essa rede social. 

O link é http://www.testosterona.blog.br/2014/08/19/mulher-descobre-pelo-facebook-que-marido-tinha-outras-esposas

 

Pode isso? Me lembrou um dos livros que tenho da coleção Literatura Brasileira Contemporânea de 1973, coedição da Livraria José Olimpio Editora, Editora Civilização Brasileira e Editora Três. Chama-se

PENSÃO RISO DA NOITE:  RUA DAS MÁGOAS (cerveja, sanfona e amor) de JOSĖ CONDÉ.

Trata-se da história chamada 

"Venturas e desventuras do caixeiro-viajante  Ezequias Vanderlei Lins,  seu Quequé  para os íntimos"

com a seguinte epígrafe autoral, segundo o autor, dos Cantadores , e eu diria, machista mas pertinente à história, que diz assim: 

 

"As mulheres me criminam,

Por eu ser muito pidão:

Eu peço porque careço, 

E elas... por que me dão?"

 

Eu o li há algum tempo, mas nunca me esqueci da história. Divertida!

 

A MONTANHA MÁGICA de Thomas Mann é um livro difícil de se ler, às vezes com maçantes discussões filosóficas, maçantes talvez, eu digo, por não compreendê-las bem... A predominante matéria de reflexão é o tempo. Ele é quase que um personagem da história também...

 

 

Escrito por Rosane Villela às 20h50
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Anotações sobre; A MONTANHA MÁGICA, de Thomas Mann e outros livros

A MONTANHA MÀGICA é um romance que nos faz questionar o que é o tempo, o espaço, o corpo, a doença, os atos que tomamos em nosso cotidiano quando estamos assim ou assado. E que nos exemplifica como o assim ou assado se dilui em contingências diversas e adversas. Muito enriquecedor sob um prisma das adversidades humanas nas diversidades humanas.

Como disse minha prima, precisa-se de coragem para lê-lo e na primeira vez que tentei, fui vencida. Agora, estou curtindo, mas aos poucos. Passagens áridas, ricas, lentas, mas tão bem escritas e com tantos caminhos de reflexão que dão gosto.

 

Guardei a página que fala da arte do cinema para meu sobrinho Pedro Henrique Ferreira, cineasta.  Falo das páginas 424, 425 e 426.

Penso que o ideal é ler esse livro com outro.  Quando vejo que a leitura não rende a largo. E retorno depois. Mas quero lê-lo todo. Detesto pegar um livro e parar... Comprei o livro O IRMÃO ALEMÃO, de Chico Buarque, para ler junto com o A MONTANHA MÁGICA. Preciso respirar outros ares, literalmente...

 

Recomendo O IRMÃO ALEMÃO. Interessante a narração que flui livremente do começo ao fim sem nenhum diálogo, com parágrafos longos que nos levam em vertigem, como ondas do mar, para as que já arrebentaram na orla; para as que estão por vir; e nas que, como leitores, surfamos. É assim que somos capturados pelas teias do fluxo do pensamento do autor nesta história que se nos desvela por sua memória biográfica e invenção. Gostei. Agora, mãos à obra com A Montanha Mágica, de Thomas Mann, autor que, para minha surpresa, Chico Buarque nos conta ter sido entrevistado por seu pai, de cuja namorada seu pai o roubou. Verdade ou invenção, não sei. Se alguém souber, me conte também.

Na escrita desse romance, Chico Buarque mistura o biográfico  com a fantasia sem delimitar passado, presente, futuro possível e futuro do pretérito. 

 

Bem espirituosa essa passagem abaixo em A MONTANHA MÁGICA sobre a conjunção "pois". Adorei a ironia usada por Thomas Mann.

" (...) Pois - Naphta gostava muitíssimo dessa conjunção que na sua boca adquiria um caráter triunfal e inexorável e fazia-lhe os olhos relampejarem atrás dos óculos, cada vez que tinha oportunidade de inseri-las nas suas deduções -, (...)".

Não há como não me lembrar dessa passagem se porventura eu usar essa conjunção. Ora, pois, pois!

O bom de lermos os clássicos é nos depararmos com certas palavras que não encontramos facilmente. Como por exemplo

" destarte". Será que a nova geração sabe o que significa?

Escrito por Rosane Villela às 20h45
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04/02/2015


MR GWYN, de ALESSANDRO BARICCO

(Escrito em 02/02/2015)

Esse livro traz consigo uma história pessoal. Meu marido foi quem me presenteou, todo prosa, dizendo que também ele, e não somente meus filhos. me comprava livros. Ele não tem o hábito de ler livros, mas é leitor voraz de jornais e de revistas da atualidade. E, foi, ao ler uma crônica de Martha Medeiros na Revista O Globo, datada de 18 de janeiro de 2015, que ele decidiu me fazer essa surpresa. Portanto, esse livro veio com essa marca, a do carinho dele e de sua aventura na Livraria Cultura do centro da cidade, onde o encomendou e depois, ainda teve de ir buscá-lo. Fato que nunca tinha acontecido antes. Além de ter sido um presente sem nenhuma comemoração específica.

 Trata-se de um romance totalmente diferente de tudo que li. Um escritor que decide nunca mais escrever livros e sim, escrever retratos. Isso mesmo: escrever retratos, mas a partir de modelos vivos numa situação inusitada que não vou contar por motivos óbvios. Quando o terminei, quis reler as suas partes finais, pelas várias indagações que me surgiram.E, então, hoje, com a pergunta em SMS de celular de um de meus filhos sobre o livro, penso que consegui, pelo menos, responder a ele, escrevendo e pensando no quanto ele me acresceu. Eis a minha resposta: 

 "Filho, esse livro é muito bom. Eu o li todo e reli o finalzinho e, acredito que apreendi o que o autor quis com essa sua escritura. Pelo menos essa é a minha opinião e a leitura que fiz dele. Seu romance nos ajuda a refletir sobre nós mesmos.

 Não somos apenas a ideia que fazemos de nós, nem a personagem imaginária que tendemos fazer coincidir com essa idéia, por nela nos reconhecermos. Fazer isso é cair num risco muito impreciso. Somos, não a fixação do que pensamos de nós - o que nos reduz à ideia e, assim, a uma visão simplista e única de nós mesmos - e sim, somos toda a história que nos envolve. Como o autor diz, pela personagem Rebecca, " somos o bosque onde ele caminha, o mau que o sacaneia, a bagunça que existe ao redor, toda a gente que passa, a cor das coisas, os rumores." 

 A idéia que fazemos de nós não é o nosso retrato. Este, existe, mas é sempre impreciso; permanece como um quadro no canto da página de um livro qualquer. Na realidade, somos como "alguma página de um livro, mas de um livro que ninguém jamais escreveu". Somos a busca. De nós, de todos e de tudo. E, assim, somos também o tempo, com alguns dados nossos nele preenchidos, e outros em branco.

 Daí, o alter-ego do autor, sob um pseudônimo feminino que não impera desde o começo de MR. GWYN, ter escrito um livro, de cuja parte falta o início, que são dois capítulos e mais dois capítulos que não faltam e que são os finais.Diz o narrador: " (...) Parece que a morte a surpreendeu quando ela ainda devia escrever, segundo os planos contidos em suas anotações, uma boa metade dele. É um texto curioso porque, contra qualquer lógica, a parte que falta é o início. (....)"  E continua: "(...) Portanto, para o leitor trata-se de uma experiência que seria justificável definir como singular, e que no entanto, seria incorreto julgar absurda." E, magistralmente: " Não é de outro modo que conhecemos nossos próprios genitores, aliás, e às vezes até a nós mesmos." 

 Como acertadamente diz Martha Medeiros, em sua crônica, este livro "é uma pequena joia porque é pequena no tamanho, mas comove por sua literatura tão bem lapidada." E porque "tem uma singularidade que o destaca".

 A singularidade de nos mostrar que somos apenas cenas da vida e do tempo, onde as principais personagens são as histórias que vivemos. O que Alessandro Baricco, em belo trabalho de metalinguagem, consegue fazer, de maneira descomplicada, quando nos conta uma história que flui levemente nas páginas de seu livro. 

 

 

Escrito por Rosane Villela às 22h26
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Janeiro de 2015

Anotações sobre;

A MONTANHA MÁGICA, de Thomas Mann;

PENSÃO RISO DA NOITE: RUA DAS MÁGOAS, (cerveja, sanfona e amor), de José Condé

O IRMÃO ALEMÃO, de Chico Buarque

MR. GWYN, de Alessandro Baricco

 

A MONTANHA MÀGICA é um romance que nos faz questionar o que é o tempo, o espaço, o corpo, a doença, os atos que tomamos em nosso cotidiano quando estamos assim ou assado. E que nos exemplifica como o assim ou assado se dilui em contingências diversas e adversas. Muito enriquecedor sob um prisma das adversidades humanas nas diversidades humanas.

Como disse minha prima, precisa-se de coragem para lê-lo e na primeira vez que tentei, fui vencida. Agora, estou curtindo, mas aos poucos. Passagens áridas, ricas, lentas, mas tão bem escritas e com tantos caminhos de reflexão que dão gosto.

Guardei a página que fala da arte do cinema para meu sobrinho Pedro Henrique Ferreira, cineasta.  Falo das páginas 424, 425 e 426.

Penso que o ideal é ler esse livro com outro.  Hoje, por exemplo, só li umas 50 páginas e, como vi que a leitura não rendia a larguei. Amanhã retorno. Mas quero lê-lo todo. Detesto pegar um livro e parar... Fico querendo saber como terminará...

Comprei o livro O IRMÃO ALEMÃO, de Chico Buarque, para ler junto com o A MONTANHA MÁGICA. Preciso respirar outros ares, literalmente...

Bem espirituosa essa passagem abaixo em A MONTANHA MÁGICA sobre a conjunção "pois". Adorei a ironia usada por Thomas Mann.

" (...) Pois - Naphta gostava muitíssimo dessa conjunção que na sua boca adquiria um caráter triunfal e inexorável e fazia-lhe os olhos relampejarem atrás dos óculos, cada vez que tinha oportunidade de inseri-las nas suas deduções -, (...)".

Não há como não me lembrar dessa passagem se porventura eu usar essa conjunção. Ora, pois, pois!

O bom de lermos os clássicos é nos depararmos com certas palavras que não encontramos facilmente. Como por exemplo

" destarte". Será que a nova geração sabe o que significa?

 

Muito do que lemos às vezes cai como luva na situação pela qual passamos. Nesse caso, falo do Brasil e o que nele vivenciamos, destarte ser cabível também para outras assimilações. Em A MONTANHA MÁGICA, de Thomas Mann, numa passagem em que se discute a maçonaria versus religião, foi essa frase que me trouxe o Brasil na carona dela. "(...) grave na sua memória que a tolerância se torna crime quando se devota ao mal." (página 688).

Em tempo: a questão discutida no livro é na realidade sobre a tolerância nos meios mencionados, não na oposição de um contra o outro

Engraçado como chegam as coisas para cada um... Por isso, a leitura é divina. Pensei que a atenção do texto caísse sobre política e acabou caindo em discussão, no facebook, mais abstrata, de crença em religião e a ordem que remonta à revolução francesa cujo lema é a igualdade, liberdade e fraternidade. Culpa minha que me expressei mal. Melhor deixar o personagem sr. Settembrini responder à pergunta do personagem Hans Castorp,"E Deus seria o mal?" . Ele responde: "A metafísica é o mal. Não serve pra nada a não ser para adormecer a energia que deveríamos consagrar à construção do Templo da Sociedade."

E eu novamente argumento: falta aos homens construírem um templo onde a humanidade seja sinônimo de Deus.

Falando em facebook, enviaram uma notícia de um homem que casara com três mulheres e cujo crime foi descoberto por uma delas por essa rede social. 

O link é http://www.testosterona.blog.br/2014/08/19/mulher-descobre-pelo-facebook-que-marido-tinha-outras-esposas

 

Pode isso? Me lembrou um dos livros que tenho da coleção Literatura Brasileira Contemporânea de 1973, coedição da Livraria José Olimpio Editora, Editora Civilização Brasileira e Editora Três. Chama-se

PENSÃO RISO DA NOITE: 
RUA DAS MÁGOAS
(cerveja, sanfona e amor)
de JOSĖ CONDÉ.

Trata-se da história chamada 

"Venturas e desventuras
do caixeiro-viajante 
Ezequias Vanderlei Lins, 
seu Quequé 
para os íntimos"

com a seguinte epígrafe autoral, segundo o autor, dos Cantadores , e eu diria, machista mas pertinente à história, que diz assim: 

"As mulheres me criminam,
Por eu ser muito pidão:
Eu peço porque careço, 
E elas... por que me dão?"

Eu o li há algum tempo, mas nunca me esqueci da história. Divertida!

A MONTANHA MÁGICA de Thomas Mann é um livro difícil de se ler, às vezes com maçantes discussões filosóficas. A predominante matéria de reflexão é o tempo. Ele é quase que um personagem da história também...

Cheguei numa parte divertida que está na caracterização cômica de uma personagem por Thomas Mann. Hilária, eu diria, de tão detalhada pelo autor. Trata-se de Peeperkorn.

Nesse ínterim li O IRMÃO ALEMÃO, de Chico Buarque, e estou nas últimas 60 páginas finais de Mr. Gwyn, de Alessandro Baricco, livro que meu marido me surpreendeu comprando, após ter lido uma crônica de Marhta Medeiros.

Ainda não sei o que dizer dele. Estou na página 153 e não tenho a mínima ideia do que virá até o final. O assunto é bem diferente de tudo que li até agora, partindo da história comum de um escritor que decide não mais escrever livros. 

 


Escrito por Rosane Villela às 22h16
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Leituras em Novembro e Dezembro de 2014

(Escrito em 11/12/2014)

Como sempre, me grudo aos livros. Eles são como cola a minha alma. E, cada vez, descubro que saberia da vida bem menos sem eles.O peso da leitura é tão importante para a educação como a que recebemos de casa, da escola, e da vida. Com a vantagem de podermos viajar sem sairmos do nosso cantinho preferido. O meu, agora, é no meu quarto, onde coloquei a poltrona que herdei de minha mãe e que me deixa confortável e com as pernas esticadas. Um luxo, por assim dizer.

 

Nada me incomoda quando me proponho a entrar no mundo em que um autor me descortina. Nem as letras miudinhas da Coleção OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL da Abril Cultural de 1971; nem livro velho, cujas páginas amarelas e desbotadas tingem as mãos; nem livro de mil e tantas páginas ou mesmo de seis. Porque, pra mim, ler é questão de atitude e a que me proponho é a de encantamento e de mente aberta para o que vier, seja de bom ou ruim.

  

Em novembro e dezembro reli GERMINAL, de Emile Zola, um grande romance do século XIX, baseado em fatos verídicos, tendo o autor trabalhado numa mina de carvão para escrevê-lo. Um romance, eu diria, “cru” de tão real na exposição da miséria e da exploração dos mineiros pelos abastados, mas que também tangencia a solidariedade e companheirismo humanos.

 

E, após este, li mais um livro de Ken Follett: UM LUGAR CHAMADO LIBERDADE, que também fala sobre o trabalho escravo nas minas de carvão da Escócia e do romance de Mack e Lizzie, distintos em classe social, mas ambos com os mesmos ideais, em busca da liberdade numa época que era patriarcal e preconceituosa.

 

Agora, como ganhei de aniversário de meu filho o livro OESTE – A GUERRA DO JOGO DO BICHO, de Alexandre Fraga, estou a lê-lo. Haja contravenções e corrupções! Nada prazeroso para os dias atuais...

Terminada essa leitura, o que li? Peguei por acaso um livro da Coleção OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL da Abril Cultural de 1971 e comecei a ler BABBIT, de Sinclair Lewis, publicado pela primeira vez em 1922. Critica a superficialidade da classe média americana e a sua maneira conformista aos padrôes estabelecidos por ela. 

Escrito por Rosane Villela às 20h40
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LIVROS LIDOS EM SETEMBRO E OUTUBRO de 2014

(Escrito em 07/11/2014)

Só a título de organização de minhas leituras nesse ano, conto o que li em setembro e outubro, como tenho feito por aqui:

 

a divertida A COMÉDIA DOS ANJOS, de Adriana Falcão;

 

OS IRMÃOS KARAMAZÓVI, de Fiodor M. Dostoiévski, que eu tinha lido há um tempão e tive o prazer de reler agora com outro olhar;

 

ETERNIDADE POR UM FIO, de Ken Follet, terceiro livro da trilogia O SÉCULO, bom demais, o que ainda é pouco para qualificá-lo;

 

e dois romances maravilhosos de Frank Yerby, que herdei de minha mãe, antigos, em capa dura, de 1957, ambos da Livraria JOSÉ OLYMPIO Editora:

 

O PECADO DE SARAH, que remonta à história dos Bentons e seus descendentes antes e durante a guerra da Secessão entre os Estados do Norte e Sul dos Estados Unidos atravessando também a Primeira Guerra Mundial, e que tem uma passagem linda que transcrevo abaixo:

 

" (...) - Eu penso algumas vezes que todas as coisas boas da vida são como isto: estranhamente intangíveis, Jane. Não tem preço no mercado, não podem ser compradas nem vendidas, nem mesmo possuídas. As coisas que Deus conserva para Si Mesmo e só compartilha conosco um pouco: as árvores, as bandeirolas do musgo longo, os raios de sol, o azul do céu e o rio que corre falando consigo mesmo, dizendo as únicas coisas que realmente importam, as coisas que durante toda a nossa vida procuramos saber e que, de algum modo, nunca aprendemos... 

- Você é estranho - murmurou Jane.  - Algumas vezes me assusta quando fala desse modo. Que poderia um rio dizer que nós não aprendêssemoa?

Clint sorriu para ela.

- O rio e o vento, Jane - disse ele em sua voz profunda e serena. - Eles sempre me murmuraram coisas, mas eu nunca pude pegar bem as palavras. A música eu sabia, mas a letra era estranha. Se eu conseguisse entendê-la uma vez, saberia tudo... o porquê das coisas, isto é, para que nascemos, de onde viemos, para onde vamos. Talvez até o que são a vida e a morte... e depois, se tal coisa existe. Mas isso não é dado ao homem saber, minha querida, porque então ele se tornaria igual a Deus e não seria mais homem. Teria de ser escorraçado, marcado, crucificado... "; 

 

e, por fim, o espetacular A ESPADA SARRACENA, um livro que nos prende a atenção do começo ao fim e com ótimas notas sobre os séculos XII e XIII no apêndice para melhor nos esclarecer sobre esse período.

 

 

Foram ótimos livros, todos eles! Um período que passei em paz e em muita melhor companhia do que com essas eleições políticas que tanto movimentou todos aqui no facebook, angariando discussões ao ponto de criar inimizades. Bem, agora, em novembro, estou a reler ANA KARÊNINA, de Tolstói, que inicia com a certeira afirmação: " Todas as famílias felizes se parecem entre si: as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.". Que boa dedução, não é mesmo? 

Escrito por Rosane Villela às 20h36
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LIVROS EM AGOSTO

(Escrito em 11/09/2014)

Em Agosto li MUNDO SEM FIM, de Ken Follet, e O CHAMADO DO CUCO, de Robert Galbraith que é o pseudônimo de J.K.Rowling. Gostei de ambos, mas preferi o primeiro.

 

Apesar de O CHAMADO DO CUCO ser uma trama interessante situada no mundo de modelos, estilistas, rappers, drogas, onde um crime prova ter sido cometido no lugar de um suicídio aceitável pela polícia, senti falta de mais contextos paralelos à história principal para que eu pudesse caminhar com minha própria imaginação. As constantes investigações em dialógos do investigador com os suspeitos e outras pessoas, além de cansativas pelo excesso, me obrigaram, sem refresco nenhum, a estar ao seu lado como uma mera espectadora. E isso, a meu ver, prejudicou o suspense.

 

Pode ser até que eu não esteja, com essas palavras, conseguindo explicar o que me ocorreu ao ler esse livro, mas, com propriedade, posso dizer, pelo menos, que,  para quem leu toda a coleção da Agatha Christie e, recentemente, os livros EU SEI O QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO e NÃO BRINQUE COM FOGO de John Verdon, esse sentimento ao término do livro da autora de Harry Potter, foi genuíno. Vale, de qualquer maneira, a leitura, até para poder julgar essa outra faceta da escritora.

 

MUNDO SEM FIM, de Ken Follet, como não podia deixar de ser, foi excelente. Um livro de 939 páginas, pelas quais passei sem sentir o tempo, inebriada pela atmosfera de uma Inglaterra medieval do século XIV, no condado de Kingsbridge, onde conspirações, costumes rígidos e jogos de poder junto às intrigas, ódio, miséria e à peste bubônica trazem o interesse pela época e a torcida pelo amor de Merthin Builder e Caris, descendentes dos protagonistas de OS PILARES DA TERRA.  

 

 

Estou, no momento, relendo, de Mia Couto, VOZES ANOITECIDAS, uma coletânea de contos. São doze histórias. Ler ou reler Mia Couto é ser sempre surpreendida por imagens inusitadas e certeiras no sentimento. É suspirar uma folha em brisa gentil ou vendaval... 

Escrito por Rosane Villela às 20h33
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SERVIDÃO HUMANA, de W. Somerset Maugham

(Escrito em 27/07/2014)

Acabei de ler o livro SERVIDÃO HUMANA, de W. Somerset Maugham, de OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL, da coleção Abril Cultural, de 1971. Um romance de 563 páginas, das quais há um bom tempo, eu desistira de ler. Mas como ele continuava ali na estante, guloso a me espreitar, antes que eu fosse engolida por seu completo desconhecimento, resolvi mordê-lo.

Qual a minha surpresa! Nada como o tempo... . Ele me trouxe outro olhar. SERVIDÃO HUMANA é um romance cujo título eu diria que o justifica. A natureza humana e suas implicações, vorazes, às vezes, com a paixão, a inveja, o ciúme, a dor, o sentimento de inferioridade, a dúvida e a inconstância da alma humana e, outras, com a amizade, a bondade, a boa intenção, o amor; bem e mal coexistindo em função do ser no contínuo movimento da vida, ora impulsionando, ora driblando e ora retroagindo seu destino.  

Vez por outra me via pasma ao acompanhar a sofreguidão psicológica do protagonista Philip - no fundo um bom sujeito -, em suas manias de análise sobre os outros e si próprio. Também a sua busca pelo que acreditava ser bom para a sua vida, ao sabor dos acontecimentos com as vistas para o futuro me enternecia. Tentativas sobre tentativas, como aluno de Heidelberg e da língua alemã, como aprendiz de pintor em Paris, onde obteve maior cultura em Literatura e o conhecimento da Pintura Impressionista (que, segundo ele, o ensinou a olhar o céu por detrás das pessoas) e como, finalmente, aluno de Medicina em Londres, Philip sofreu agruras e até a pobreza, indo do mais alto grau de uma vida em que podia “olhar por cima” e despreocupado as pessoas devido às libras deixadas pelos pais até o fato da perda da fortuna numa aposta de mercado que o fez largar o curso e ser “indicador” de loja.

Sem rumo durante um bom tempo, enfrentando as dificuldades de preconceitos por ser aleijado do pé e ainda órfão, desde tenra idade, tendo ido morar com o tio-vigário, irmão de sua mãe, mas ausente em sua criação, e da tia que procurava cobri-lo de carinho, mas falecera, Philip recriou-se, experimentando os caminhos que lhe advinham. Uma fraqueza de seu espírito, segundo o tio-vigário que dizia que “pedra que muito rola não cria limo”.

Mas nosso protagonista, com muitas dificuldades, venceu as decepções amorosas, o pensamento obsessivo de suicídio e, graças à morte do tio, herdou uma pequena fortuna que possibilitou seu retorno à Medicina, à família que o acolhera no coração, e ao amor que, surpreso, descobriu.

 

SERVIDÃO HUMANA é livro que ensina que liberdade não é ter um amplo espaço vazio no presente para preenchê-lo com o futuro largo de ideais que outros, com suas palavras e escritos, tenham inculcado na alma, o que, na realidade, é um vasto deserto do oceano, em “vacuidade desolada”. Liberdade é, antes, chegar a um porto seguro, desejo de toda alma, onde o comandante é o coração, e viver o mais belo desenho da vida, traçado com fatos insignificantes, onde “o homem, nasce, trabalha, casa-se, procria e morre.”.  

Escrito por Rosane Villela às 20h16
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Leitura na Copa do Mundo de 2014

(Escrito em 14/07/2014)

Li dois livros durante a copa e penso que aprendi mais do que se tivesse ficado grudada na TV.

Os livros foram: A CATEDRAL DO MAR de Ildefonso Falcones, livro esgotado, mas que consegui num sebo pela Estante Virtual, após procura pelo preço razoável de R$90,00 ( a maioria oferecia R$200,00 a R$220,00 ) e TERRA SONÂMBULA, de Mia Couto. Todos os dois muitíssimo bons.

O primeiro, um romance histórico do século XIV onde o pano de fundo é a história de Arnaud que, com seu pai Bernat, servo da terra, fogem do senhor feudal e seus abusos para se refugiarem em Barcelona onde se tornam homens livres. Paralelamente as suas vidas corre a construção de um templo mariano, a Santa Maria do Mar, feita pelo dinheiro de alguns e o muito esforço braçal dos estivadores. E, em meio às guerras, peste, traições, inveja, lealdade e amor, há a Inquisição, o jogo de interesses e a perseguição aos judeus. Um livro excelente em que nos enternecemos e nos horrorizamos e lido a conta-gotas nas suas páginas finais por muita, muita pena de terminá-las.

O segundo, TERRA SONÂMBULA, um livro que, por entre as entrelinhas da fala poética de Mia Couto e o intercruzamento de duas histórias, conta sobre a devastação da guerra-civil no Moçambique pós-independência e o resgate do povo e sua cultura pelo sonho. Senti-me também sonâmbula, solidária na dor e esperançosa por dias melhores...        

Escrito por Rosane Villela às 20h07
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MEU FIM DE SEMANA COM O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

(Escrito em 24/06/2014)

Resolvi reler o romance de Emily Brontë. O Morro dos Ventos Uivantes, da coleção da Abril Cultural de 1971 que tenho, chamada OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL.

Como li muito, praticamente em todo o fim de semana, descontando afazeres, uns filmes, uma saidinha rápida, etc, ao dormir, meus neurônios me pregaram a peça da insônia por suas sinapses aceleradas. Eu sentia uma dificuldade de relaxar, tão vivos estavam os diálogos de cunho psicológico e a trama que envolve gerações. Falas de personagens em páginas inteiras num exercício de silêncio atento, tumultuado por emoções diversas. Fiquei pensando: “onde encontrar em cenas desse nosso mundo falas como essas? Urdidas, sentidas, inteligentes, perspicazes? No princípio era o verbo... onde ele foi parar???

 

Lendo agora Terra Sonâmbula, de Mia Couto, me deparei com a frase: "Naquele território, tão despido de brilho, ter razão é algo que não dá vontade".  Para mim, uma frase para assimilarmos em algumas ocasiões e circunstâncias. O máximo da sabedoria. Mia Couto, um pouco de Manoel de Barros, Guimarães Rosa, e muito dele próprio.      

Escrito por Rosane Villela às 20h04
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MEU FIM DE SEMANA COM O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

(Escrito em 24/06/2014)

Resolvi reler o romance de Emily Brontë. O Morro dos Ventos Uivantes, da coleção da Abril Cultural de 1971 que tenho, chamada OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL.

Como li muito, praticamente em todo o fim de semana, descontando afazeres, uns filmes, uma saidinha rápida, etc, ao dormir, meus neurônios me pregaram a peça da insônia por suas sinapses aceleradas. Eu sentia uma dificuldade de relaxar, tão vivos estavam os diálogos de cunho psicológico e a trama que envolve gerações. Falas de personagens em páginas inteiras num exercício de silêncio atento, tumultuado por emoções diversas. Fiquei pensando: “onde encontrar em cenas desse nosso mundo falas como essas? Urdidas, sentidas, inteligentes, perspicazes? No princípio era o verbo... onde ele foi parar???

 

Lendo agora Terra Sonâmbula, de Mia Couto, me deparei com a frase: "Naquele território, tão despido de brilho, ter razão é algo que não dá vontade".  Para mim, uma frase para assimilarmos em algumas ocasiões e circunstâncias. O máximo da sabedoria. Mia Couto, um pouco de Manoel de Barros, Guimarães Rosa, e muito dele próprio.      

Escrito por Rosane Villela às 19h59
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