Além de escritor, Elias José foi professor de Literatura Brasileira e de Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia de Guaxupé, tendo atuado também como vice-diretor, diretor e coordenador do Departamento de Letras e como professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira na Escola Estadual Dr. Benedito Leite Ribeiro.
Começou a publicar em 1970, quando a Imprensa Oficial de Minas Gerais lançou A Mal-Amada, uma surpreendente coleção de minicontos, com o apoio de Murilo Rubião, que reunia contos publicados em suplementes literários do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Portugal. Antes disso, já tinha conquistado o segundo lugar no Concurso José Lins do Rego da Livraria José Olympio Editora, em 1968. Depois, publicou O Tempo, Camila e o Inquieta Viagem ao Fundo do Poço, que ganhou o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro como Melhor Livro de Contos e, ainda, o prêmio Governador do Distrito Federal como Melhor Livro de Ficção de 1974.
Elias José tem contos e poemas traduzidos e publicados em revistas literárias e antologias de autores brasileiros no México, Argentina, Estados Unidos, Itália, Polônia, Nicarágua e Canadá. Foi, por várias vezes, selecionado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil para representar o Brasil em feiras de livros internacionais.
Faleceu aos 72 anos, vítima de complicações de uma pneumonia, enquanto curtia férias com a família em Guarujá, no litoral paulista, no dia 02 de agosto de 2008.
Essa referência bibliográfica se encontra, hoje, no Instituto Cultural Elias José (ICEJ), fundado em 2008, por iniciativa de Silvia Monteiro Elias, viúva do escritor. Trata-se de uma entidade de cunho literário, cultural e artístico, com sede em Guaxupé, Minas Gerais, que conta com pessoas que fazem parte do chamado “Amigos do ICEJ”, e que tem como objetivo a divulgação da literatura infantil, com o intuito de manter viva a obra de Elias José.
Recentemente qualificado como entidade filantrópica, em 27 de maio de 2009, o Instituto Cultural Elias José faz o que o autor fez em sua vida inteira: leva o gosto pela leitura através da interação do livro com a criança, propiciando encontros com escolas e instituições através das contações de histórias, poesias rimadas e apresentações teatrais. Tem também, em sua sede, um sebo em funcionamento — com a ajuda de doações de livros feitas por pessoas da comunidade local —; uma Biblioteca Infanto-Juvenil com mais de 1.000 livros no acervo, aberta ao público de segunda à sexta-feira; e, com o seu Projeto Caixa Mágica de Surpresa — que consta de livros transportados em caixas confeccionadas com ilustrações do livro publicado pela Editora Paulus, Caixa Mágica de Surpresa, — leva os livros até as crianças que não tem tanto acesso a essa forma de prazer.
Um belo projeto que, metaforicamente, ilustra todo o trabalho de Elias José. Traz a fantasia embrulhada numa caixa de papelão, como quando ele a trazia em seus livros. Pois, para Elias José, a fantasia é tudo. No livro Pequeno Dicionário Poético-humorístico Ilustrado, da Editora Paulinas, em seu poema Imaginário, ele diz:
Se só pisássemos em terra firme,
sem luzes, sem cores, sem asas na cabeça,
sem sonhos, sem fantasias, sem infância,
sem artes e artistas e crianças,
como seríamos pobremente infelizes!...
É o IMAGINÁRIO
que abre as portas do sonho,
da fantasia, do faz-de-conta,
com ou sem a palavra abracadabra.
O livro, para Elias José, é mágico, pois, segundo ele, “mágico é uma palavra que mora nos caminhos da infância”. E, da sua infância, mágicas eram as contações de histórias cheias de crenças e de medos por parte dos colonos da fazenda de seu pai. Mágicas também as histórias que ouvia pelo rádio e por parte de sua avó paterna libanesa, a dona Joana. Essa, apesar de nunca ter sido alfabetizada nem em sua terra nem aqui no Brasil, sabia encantar. Ele afirmava, “(...) como sabia encantar. Contava com gestos e caras, a modulação da voz segundo a ação ou os personagens. Aquelas histórias faziam a gente voar até o Líbano, nosso paraíso preferido.”
Elias José teve uma infância privilegiada com relação à afetividade e ao estímulo do imaginário. E dizia que se ele tinha virado escritor, se criava histórias e poesias, era porque tinha tido o seu imaginário infantil muito, mas muito bem alimentado.
Em seu livro Literatura Infantil: ler, contar e encantar crianças, da Editora Mediação, ano 2007, ele não somente chama a atenção para a importância de como despertar esse alimento do imaginário através dos diferentes meios de comunicação, como também fala do que falta para que esse alimento se processe da melhor maneira possível:
“(...) O jornal, a revista e o livro contam histórias. O rádio, a TV e a internet contam histórias. As letras de música contam histórias, quase sempre de amor. Num quadro de pintura sem se perceber uma narrativa, com pessoas, tempo e espaço, há uma história feita de imagens, sem palavras. Os discos, filmes e peças de teatro contam histórias. Os quadrinhos e as propagandas contam histórias. Há belos livros, feitos só de narrativas através de imagens. O que nos falta, que parece estar voltando nas melhores escolas, mas que ainda está desaparecida da vida familiar, é a história contada e lida de maneira mágica, feita para encantar as crianças. Histórias que não querem vender nada, como nas narrativas da publicidade. Histórias sem vontade de passar lições religiosas e morais, sem vontade de ensinar nada, mas lidas ou contadas pelo simples prazer de envolver nas tramas das narrativas. Pelo afeto e pelas palavras e gestos, criam-se e recriam-se mundos e seus habitantes fantásticos. Histórias contadas pelo que tem o homem de inventar, de ficcionar poética e teatralmente.(...)”.
Elias era assim. Sabia que o seu melhor caminho de contribuição era o das crianças e adolescentes e não deixou de trilhá-lo. Seis anos após a sua estréia literária em livro, publicou Curtições de Pitu, pela Melhoramentos, em 1976, e, a partir daí, imprimiu a sua marca na literatura infantil e juvenil nas mais de centenas de livros publicados, muitos em reedições várias pelas diversas editoras de nosso país.
Uma missão. Elias defendia a literatura infantil e juvenil como um bem maior, necessário à vivência de qualquer ser humano. Elias José foi Elias José, com toda a sua veracidade, com o seu prazer transparente na elaboração do texto, a alegria que jorrava de seus escritos, a imensa multiplicidade e diversidade de seu talento e a sua profunda simplicidade.
E assim ele se fez grande ante seus leitores, crianças, adolescentes e adultos, professores, educadores, editores, estudiosos de literatura, jornalistas, familiares, amigos e escritores.
Por isso, que falar de Elias José não é falar apenas de suas obras e sim, também do homem, do educador, poeta, escritor e amigo das crianças, para quem escrevia com total responsabilidade, espírito lúdico e compreensão do real através do simbólico.
Multifacetadas, suas obras comunicam pelo uso exato da palavra autoral, escolhida a dedo de acordo com a intenção e a especificidade a que se destinam. Elias José sabia que as palavras não são indiferentes e têm identidade. São únicas. Por isso, ele conseguia dar sabor a sua expressão, levando-a ao patamar da Arte quando o leitor também se exercitava no domínio da palavra. Expressando as descobertas e possibilidades de seu texto e criando outras. Criador e criatura envolvidos, inventando-se e reinventando-se num processo contínuo de diálogo e conhecimento...
Em seu depoimento ao livro organizado por Ieda de Oliveira, O que é qualidade em Literatura Infantil e Juvenil – com a palavra o escritor, da Editora DCL, Elias José diz:
“Literatura é arte, feita com palavras, com o imaginário solto, sem compromisso de informar ou ensinar, com o grande desejo de emocionar, de sensibilizar, de mexer com a inteligência, com o “eu poético” do leitor e com o seu imaginário ficcional, provocando o prazer de ler e a vontade de também escrever.” “Quando estas importantes qualidades textuais forem reconhecidas” — continua ele —, “a leitura será colocada no seu devido lugar na escola: a prioridade e superioridade sobre qualquer outra atividade. Seja a leitura referencial como a didática e a literária, todas importantes, mas cada uma com qualidades e funções bem percebíveis.”.
Assim era Elias José. Um autor apaixonado pelo que fazia, preocupado com a arte da literatura e com a educação. Um mestre na arte de formação do leitor através da arte de mobilização. Trazia suas palavras para a realidade da criança e do professor, promovendo respostas criativas, necessárias e indispensáveis ao estar no mundo. Sua literatura é fonte de maravilhamento e de reflexão pessoal. Sua literatura é fonte de espírito crítico para a formação do ser.
Assim era Elias José. Um autor cujas obras alcançam o leitor pela sua ludicidade; pelo seu poder encantatório no ritmo que imprime aos seus escritos; pela sonoridade de suas palavras; pela sua poesia; e pelo conteúdo que abrange temas complexos ou triviais tratados de maneira descomplicada e com leveza.
Tenho muito a agradecer a ele. O mergulho na riqueza de sua obra me fez uma leitora e uma escritora mais sensível.
Elias José, autor do presente, que conversa, brinca e compartilha no encantamento da literatura. Autor do passado, no respeito à preservação da memória da tradição e dos costumes; e autor do futuro, das futuras gerações pela contação de histórias que traz um denominador eterno: o sonho, o imaginário e o prazer.
Muito obrigada a todos. Muito obrigada ao COLE pela oportunidade de homenagear nosso querido Elias José.